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Sete vezes Sete

- Ora, Sete! Você anda lendo muita história de terror...
- Eu juro pelos Sete Anões que eu vi, retrucou.
Como o moleque não parava de gritar, resolvi acompanhá-lo até o "local do crime."
Sete ia rezando as sete ave-marias. Por sete vezes fez o sinal da cruz. Comecei a pensar que a coisa era séria mesmo. Quando estávamos quase chegando, Sete deu sete passos para trás e disse:
- Não vou. Tô cum medo. Vou voltar.
- Não vai não, moleque. Agora você vai ter que ir comigo até lá, repliquei.
Por sete vezes ainda Sete tentou esquivar-se, dizendo:
- Vai ver que eu imaginei! Vamos embora! Não vale a pena. Deixa pra lá! Ando ouvindo coisas, sabe? Não está na hora do jantar? Sua mãe deve estar te procurando...
Minha paciência chegou ao final. Agarrei o Sete pelos cabelos e pulamos o muro.
Confesso que eu mesmo estava ficando com medo. Afinal, já estava ficando escuro e o Sete estava tão apavorado que pensei que íamos de fato presenciar um crime. Por sorte, eu sempre carregava uma lanterna no bolso - presente de meu avô no último Natal. Tudo ficaria mais tranqüilo quando eu ligasse a lanterna. Mas eu havia me esquecido. Minha lanterna só funcionava com sete pilhas. E eu havia me esquecido de trocá-las. A luz que veio dela foi muito fraca. Apenas o suficiente para iluminar sete pares de olhos brilhantes.
- Socorro! Pelas sete barbas de Barba Azul, acudam!, gritou o Sete, enquanto fugia correndo como se calçasse as botas de sete léguas.
Eu continuei ali parado que nem bobo, tentando ver através da escuridão. De repente, um clarão de sete lâmpadas iluminou todo o terreno. E pude ver com clareza. Os pares de olhos eram de sete palhaços vindos para alegrar a festa de aniversário do Sete. E como queriam fazer bonito, ensaiaram sete vezes a história do Barba Azul. E, na peça, Barba Azul matou sete mulheres com sete facas, por sete vezes. Foi isso que o Sete viu.
Depois do susto, fomos procurar o Sete. Por sete dias andamos em vão A mãe de Sete mandou rezar sete missas. Seus irmãos foram em sete cidades vizinhas. E até hoje o Sete não apareceu. Deve andar por aí pintando o sete. Mas se você vir um menino de cabelo em pé, pergunte o nome dele. Se ele disser que seu nome é Sete, fuja dele o mais rápido que puder. E não basta fugir só uma vez. Pra ele não te procurar nunca mais, tem que fugir sete vezes sem parar.
Rita Farias
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